
Há mulheres que se perdem devagar
Há mulheres que se perdem devagar.
Não num grande acontecimento. Não num dia específico. Mas aos poucos.
Entre rotinas, responsabilidades, trabalho, expectativas, cansaço e silêncios que ninguém vê.
Um dia acordam e percebem que já não sabem muito bem onde ficaram pelo caminho.
Durante muito tempo achei que comigo era apenas uma fase. Que precisava de descansar mais. Organizar-me melhor. Esforçar-me mais um bocadinho.
Mas hoje percebo que não era isso.
O que eu sentia era distância de mim mesma.
Durante anos vivi muito focada em corresponder. Em fazer o que era preciso. Em resolver, cuidar, organizar, sustentar tudo o que precisava de ser sustentado.
E de fora talvez até parecesse que estava tudo bem.
Porque nós, mulheres, aprendemos cedo a continuar. Mesmo cansadas. Mesmo tristes. Mesmo quando sentimos que já não sabemos exatamente quem somos.
Continuamos.
Mas existe um momento em que o corpo começa a falar. A mente começa a ficar exausta. E o coração já não consegue ignorar aquilo que sente.
Foi a maternidade que despertou isso em mim de forma muito profunda.
Ao mesmo tempo que nascia um bebé… parecia que eu própria estava a nascer outra vez. Só que sem manual. Sem pausa. Sem silêncio suficiente para me ouvir.
Continuei a trabalhar. Continuei presente para toda a gente. Continuei a cumprir.
Mas comecei a sentir um vazio estranho. Como se estivesse constantemente em piloto automático.
E talvez o mais difícil tenha sido perceber que já não sabia exatamente quem era fora das funções que desempenhava.
Mãe. Profissional. Companheira. Pessoa responsável.
Mas… e eu?
Onde tinha ficado a mulher para além de tudo isso?
Durante muito tempo achei que precisava de encontrar “o meu propósito”. Como se existisse uma resposta perfeita escondida algures.
Mas hoje percebo que talvez nunca tenha sido sobre encontrar uma ideia perfeita.
Talvez fosse apenas sobre parar de me abandonar.
Voltar à minha voz. À minha verdade. Àquilo que me faz sentir viva.
E talvez voltar a nós não aconteça num grande momento mágico.
Talvez aconteça devagar. Em pequenas pausas. Em pequenos reencontros. Em momentos onde finalmente começamos a ouvir-nos outra vez.
Hoje continuo nesse caminho. Ainda tenho dúvidas. Ainda tenho medo. Ainda me perco às vezes.
Mas existe uma diferença importante:
já não me abandono como antes.
E talvez seja exatamente isso que significa voltar a nós.
Beijinhos Daniela