
Quando a raiva finalmente ganha voz
Tenho sentido uma emoção que já conhecia, mas que nunca lhe tinha dado espaço: A Raiva.
Uma raiva que não aparece apenas na cabeça.
Aparece no corpo.
No peito.
Nos ombros tensos.
No pescoço rígido.
Num ardor difícil de explicar, como se algo dentro de mim estivesse há demasiado tempo preso.
É uma sensação quase instintiva.
Uma vontade de gritar.
De partir tudo.
De finalmente dizer aquilo que durante tantos anos ficou calado.
E talvez o mais difícil seja isto:
eu nem sempre consigo expressá-la.
Porque a minha voz aprendeu, desde cedo, a sobreviver no silêncio.
Nos últimos tempos tenho remexido em temas ligados aos meus pais, à minha mãe, à minha infância. E sinto que, quanto mais me aproximo dessas memórias e emoções, mais esta raiva ganha espaço dentro de mim.
Uma parte minha sente revolta.
Incompreensão.
Tristeza.
Mas sobretudo… sinto a minha menina pequenina a gritar.
A pedir para ser vista.
Escolhida.
Acarinhada.
E talvez uma das dores mais difíceis de reconhecer seja esta sensação silenciosa de nunca termos sido a primeira escolha de alguém.
Hoje, racionalmente, eu sei:
isso não define o meu valor.
Sei que os meus pais são apenas pessoas.
Com limitações.
Feridas.
Defeitos e qualidades.
Sei que ninguém consegue dar aquilo que também nunca aprendeu a receber.
Mas o corpo nem sempre acompanha a racionalidade.
Existe um lado emocional, quase primitivo, que continua a sentir a dor. E quando essa dor não encontra espaço… transforma-se em raiva.
Durante muito tempo tive medo dela.
Medo da intensidade.
Medo daquilo que podia despertar em mim.
Medo de deixar de ser a “menina tranquila”, bem comportada, silenciosa.
Mas ultimamente comecei a perguntar-me:
e se a raiva não vier para me destruir?
E se ela estiver apenas cansada de ser ignorada?
Então comecei a ouvi-la.
“Raiva, o que me queres dizer?”
E pela primeira vez senti uma resposta muito clara dentro de mim:
“Estou aqui para te libertar.”
Talvez a raiva apareça quando já nos calámos demasiado tempo.
Quando passámos anos a engolir emoções, a adaptar-nos, a sobreviver.
Talvez ela seja a parte de nós que se recusou a morrer.
A parte que sabe que merecíamos mais.
Mais presença.
Mais amor.
Mais escolha.
Perguntei-lhe:
“Há quanto tempo estás aqui?”
E senti:
“Desde que te tornaste uma menina sossegada para sobreviver.
Desde que descobriste que precisavas de te calar para seres aceite.
Desde que começaste a acreditar que não eras suficiente.”
E talvez seja exatamente isso que torna esta emoção tão intensa.
Porque ela não fala apenas do presente.
Ela carrega anos inteiros de silêncio.
Hoje ainda não sei exatamente o que fazer com ela.
Mas sei que já não quero continuar a fingir que não existe.
Quero aprender a dar-lhe espaço sem medo.
A ouvi-la sem culpa.
A perceber que ela não vem necessariamente para destruir — talvez venha para devolver-me a mim mesma.
Porque no fundo, talvez a raiva também seja isto:
uma tentativa desesperada da nossa verdade ganhar voz.
E talvez o caminho não seja sufocá-la outra vez.
Talvez seja transformá-la.
Em limites.
Em coragem.
Em expressão.
Em verdade.
“Do que precisas neste momento?” — perguntei-lhe.
E ela respondeu:
“Que me deixes existir.
Que uses a tua voz.
Que pares de te abandonar.
Que finalmente te escolhas a ti.”
Talvez seja isso que estou a aprender agora.
A deixar de sobreviver em silêncio.
E a começar, aos poucos, a existir inteira 🤍